O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Vida de Santa Maria Egipcíaca

SOFRÓNIO. Vida de Santa Maria Egipcíaca. Alcobaça: 1260.

Narrativa hagiográfica grega, atribuída a Sofrónio, bispo de Jerusalém (m. 638). Foi posteriormente traduzida para latim e, a partir daí, para as línguas europeias. 

Esta Vida tematiza a misericódia divina alcançada por uma pecadora através de intenso arrependimento e penitência. Partindo do modelo dos anacoretas do deserto, esta hagiografia combina elementos da Vida de S. Paulo de Tebas, de S. Jerónimo (sécs. IV-V) – donde se retirou o enquadramento geral e o tipo de ermita cuja perfeição conduz ao pecado de orgulho – com a Vida de S. Ciríaco, abade e confessor, de Cirilo de Escitópolis (séc. VI), inspiradora do percurso da protagonista. A origem egípcia da protagonista poderá estar relacionada com uma outra Maria, também pecadora, cuja história Efrém de Edessa, diácono (m. 378), inclui na Vida de S. Abraão, tio destoutra arrependida.

Protagonizando o tipo da prostituta-penitente, Maria Egipcíaca abandona Alexandria e os doze anos de vida dissoluta que aí passou. Perturbada por ter sido impedida de entrar numa igreja de Jerusalém, segue o conselho da Virgem, divinamente comunicado através de uma estátua, e cumpre um itinerário de penitência no deserto do Jordão. O batismo no rio assinala a redenção da personagem que, tal como S. Paulo, sofre, depois, dezessete anos de tentações intensas, para, após igual período de oração, edificar e superar em perfeição o monge Zózimas que, tal como o eremita Santo Antão, se julgara o mais perfeito da terra. 

O encontro entre o monge e a penitente junta luxúria e orgulho, os pecados das duas personagens em vias de redenção, sendo a supremacia de Maria  a resposta às expectativas edificantes de Zózimas. Nesta demanda, o monge é também o veículo divino para encontrar a mulher arrependida, para testemunhar a sua santidade e para revelar a sua história exemplar. 

A Idade Média portuguesa conservou três versões latinas na Livraria de Alcobaça, hoje na Biblioteca Nacional de Lisboa. A primeira, incluída numa coleção hagiológica anónima do século XIII (cód. CCLXXXIII/454) que transmite a versão das Vitae Patrum, mediada pela Compilatio Valeriana, e, provavelmente, um testemunho de maior interesse literário e usado pela tradução para português. A segunda presente na 4.ª Parte do Speculum Sanctorale, do dominicano Bernardo Guido (†1331), de finais do século XIV (cód. alc. CCXVII/449). A terceira consta das duas cópias do legendário abreviado aqui designado Flores seu legendae sanctorum, cópia do original trecentista (c. 1260) de Jacobo da Varagine, e datável de fins do séc. XIII, princípios do XIV (cód. CCXCIX/40) e de fins do século XIV (cód. CCXCVIII/39).

 Em língua portuguesa, conservam-se três traduções: duas pertencentes ao Mosteiro de Alcobaça e uma terceira integrada no Flos sanctorum de 1513, título da tradução portuguesa da Legenda aurea daquele italiano. As duas primeiras versões terão sido traduzidas entre 1275–1325: o cód. alc. 462 reúne as mais conhecidas hagiografias medievais e a tradução da Vida, que se pode ler nos fls. 50v-66r, foi copiada durante o abaciado de D. Estêvão de Aguiar (c. 1431-c. 1446); a cópia do cód. 461, nos fls. 116r-133v, foi executada entre 1475 e 1500. Finalmente, a tradução portuguesa do Flos Sanctorum terá sido realizada entre 1511 e 1513 e deve ter tido como antecedente imediato um outro Flos Sanctorum, hoje perdido, e impresso em Saragoça por Paulo Hurus, entre 1490 e 1491.

O sucesso desta hagiografia é testemunhado em todo o mundo medieval. O radicalismo e os extremos da conversão santa tocaram de tal modo a sensibilidade medieval que  a Vida de Santa Maria Egipcíaca se tornou, sobretudo  a partir do séc. XII, uma das hagiografias mais copiadas, traduzidas, refundidas e resumidas durante a Idade Média, sobretudo através da tradução abreviada de Jacobo da Varagine. Sobre a sua fortuna posterior, mencionem-se apenas alguns testemunhos da sua repercussão nacional, nos sucessivos Flos Sanctorum, num poema narrativo de Leonel da Costa (1627), num texto dramático de Fr. Isidoro Barreira (séc. XVII) ou em folhetos de cordel (sécs. XVII-XIX). E, no domínio das artes, pintores como Tintoretto (séc. XVI), José de Ribera (séc. XVII), Emil Nolde (séc. XX) confirmam a sua fortuna internacional.

Ana Maria e Silva Machado
Universidade de Coimbra

Edições Modernas

WARD, Benedicta. Harlots of the desert. A study of repentance in early monastic sources. London & Oxford: Mowbray, 1987. 

MACHADO, Ana Maria. Tradição, movência e exemplaridade na Vida de Santa Maria Egipcíaca subsídios para o estudo da Hagiografia Medieval Portuguesa. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1988. 

SOBRAL, Cristina. Santa Maria Egipcíaca em Alcobaça. Ed. crítica das versões medievais portuguesas da lenda de Maria Egipcíaca. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1991. 

JÚDICE, Nuno. O Espaço do Conto no Texto Medieval. Lisboa: Editora Vega, 1991.

FACCON, Manuela. “Una Vyda de Sancta Maria Egipcia e do Sancto Homem Zozimas alcobacense: apuntes sobre un manuscrito y su edición caídos en el olvido”. In: PARRILLA GARCIA, Carmen, et al. (ed.). Actas del I Congreso de Jóvenes Filólogos. Edición y anotación de textos. La Coruña: Universidade da Coruña, 1999.

SOBRAL, Cristina. O Flos Sanctorum de 1513 e suas adições portuguesas. Lusitania Sacra. 2ª S. 13-14, 2001-2002, pp. 531-568.

_______ (ed.). Vida de Santa Maria Egipcíaca (W). Lisboa: Universidade de Lisboa/ Centro de Linguística, 2015. 

Disponível em: http://alfclul.clul.ul.pt/teitok/cta/index.php?action=edit&id=M1141T1087.xml 

_______ (ed.). Vida de Santa Maria Egipcíaca (V). Lisboa: Universidade de Lisboa/ Centro de Linguística, 2015. 

Disponível em: http://alfclul.clul.ul.pt/teitok/cta/index.php?action=edit&id=M1143T1087.xml 


Trecho traduzido e modernizado

Nos mosteiros da Palestina, viveu um velho muito honrado, por virtude e por palavra, que desde o início da sua meninice foi criado segundo os costumes dos monges. E este santo homem tinha o nome de Zózimas. E escolheu se tornar monge nos mosteiros da Palestina, passou por toda a conversão dos santos padres que moravam no deserto e era muito determinado na abstinência, mais que todo mundo, e sendo ministro guardou muito bem as relíquias dos santos monges e, por sua própria natureza, encontrou muitas coisas com as quais subjugava a carne ao espírito, e tanto sabia este santo velho sobre as tentações e sobre vencer as batalhas contra os pecados que muitos vinham até ele de outros mosteiros, de perto e de longe, e eram acalentados e ensinados por ele, desfrutando de seus bens. Tal era a vida do santo homem que nunca deixava de cuidar e meditar as santas palavras e não cansava de trabalhar com suas mãos. 



Autor do documento: Sofrónio, bispo de Jerusalém  

Nome do documento: Vida de Santa Maria Egipcíaca

Data da composição: 1260.

Lugar de composição ou impressão: Mosteiro de Alcobaça 

Imagem: Manuscrito da Biblioteca Nacional de Portugal (alc-461). 

http://catalogo.bnportugal.gov.pt/ipac20/ipac.jsp?profile=bn&source=~!bnp&view=subscriptionsummary&uri=full=3100024~!622784~!2&ri=1&aspect=subtab13&menu=search&ipp=20&spp=20&staffonly=&term=lus%C3%83%C2%ADadas&index=.TW&uindex=&aspect=subtab13&menu=search&ri=1