O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Vida de Santa Eufrosina

DESCONHECIDO, compilado por Farciso do Monte. Vida de Santa Eufrosina [COLECÇÃO HAGIOLÓGICA]. O rdem de Cister. Mosteiro de Santa Maria (Alcobaça): Século V, compilação século XV.


Tradução de uma hagiografia originariamente escrita em grego, no século V, com um acrescento significativo antes do século X, altura em que foi traduzida para latim, passando a ser conhecida no Ocidente.¹ Em Portugal, a versão latina conserva-se em dois manuscritos: o do século XII, pertença inicial do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Vita S. Euphrosinae virginis, cód. LXXIII/348, fs. 172v-181, hoje na Biblioteca Pública e Municipal do Porto (BPMP), é uma das mais antigas recolhas hagiográficas conservadas; o outro, já do século XIV, pertenceu à Livraria alcobacense e está hoje na Biblioteca Nacional (BNL): Vita Sanctae Euphrosynae, cód. LXXVII/1, fs. 153-161. A tradução portuguesa, ditada, como outras, pela importância crescente da língua portuguesa e integrada num programa prático de formação espiritual,² consta do cód. alc. 462³ (olim BNL ALC CCLXVI; ANTT Livr. 2274), com o título tardio "Collecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça", fs. 42v-50v; é paleograficamente datável do século XV, foi copiada por Farciso do Monte, conforme consta do f. 50v e está junto das mais conhecidas ficções hagiográficas medievais.

A intriga, próxima da Vida de Santa Pelágia, de que parece ser uma réplica, é protagonizada por Eufrosina de Alexandria, que nasce tardiamente no seio de um casal abastado e de grande devoção. Prometida em casamento, é confrontada com a sua vocação espiritual, incrementada pela doutrinação dos monges do mosteiro de Teodósio, e opta pela vida religiosa. Aproveitando a ausência do pai, Panúncio, oculta a sua identidade feminina e apresenta-se naquele mosteiro com o nome de Esmarado. Desconhecendo o paradeiro e inconsolável com o desgosto, Panúncio procura refrigério junto do abade e este lhe aconselha a própria filha, que o doutrina e tranquiliza, sem que ele a reconheça, pois Eufrosina, mortificada, já não pertence ao mundo terreno. De acordo com o desfecho tradicional, depois de 38 anos sem levantar suspeitas, Esmarado adoece e, ao receber a visita do pai, pede-lhe que ali permaneça três dias. Perante a morte iminente, revela-lhe a sua verdadeira identidade. Após o seu falecimento, o pranto do pai quebra o sigilo e a notícia divulga-se no mosteiro para edificação de todos os monges.

O tema da vida monástica que domina a Vida conjuga-se com o do contemptus mundi, ambos se desenvolvendo mediante o modelo mestre-discípulo, um esquema particularmente adequado à dimensão pragmática da Vida. O didatismo dos longos discursos de teor doutrinal evidencia-se na progressiva aprendizagem que Eufrosina colhe das falas do monge que a edifica, mas também nos conselhos que ela própria dá ao pai, reiterando e difundindo a lição antes recebida, e, num plano mais alargado, na edificação que o exemplo da monja proporciona tanto no espaço conventual como no dos recetores da obra.

Embora o motivo do disfarce com mudança de sexo seja comum na ficção hagiográfica, ele é aqui mais complexo, porque o pio engano visa simultaneamente a comunidade religiosa e a familiar. Tal como nas Vidas das Santas Pelágia de Antioquia ou de Teodora de Alexandria, este motivo permite que as protagonistas cumpram a expiação ou, neste caso, a aspiração de santidade. Por outro lado, a ocultação da identidade feminina e a aparente experiência masculina a que se submetem constitui uma espécie de penitência a que a sua condição de mulher precisa de se submeter para alcançar o reconhecimento da comunidade monástica e do mundo. De outra forma, apenas lhe restaria a exclusão. 

No âmbito da movência endógena à poética medieval, ao monacho parthenia acrescentam-se aqui outros topoi como a esterilidade da mãe, o nascimento como recompensa da devoção dos pais, a recusa do casamento, a sabedoria precoce, a formosura como fonte de tentação, deste modo alargando a teia intertextual em que se move a ficção hagiográfica.
¹  CORREIA, Ângela. Vida de S. Aleixo. In G. Lanciani e G. Tavani (dirs.), Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Lisboa: Caminho, 1993, pp. 663-664; id. “Sobre a funcionalidade da narrativa hagiográfica”. In NASCIMENTO, A. A. (dir.), Actas do IV Congresso da Associação Hispânica de Literatura Medieval.  Lisboa: Edições Cosmos, 1993, vol. 2, pp. 121-124.
²  NASCIMENTO, Aires Augusto. A experiência do livro no primitivo meio alcobacense. In Actas dos Encontros de Alcobaça e Simpósio de Lisboa do IX Centenário do Nasciemnto de S. Bernardo. Braga: Universidade Católica – Câmara Municipal de Alcobaça, 1991,  pp. 122-146. SOBRAL, Cristina. Notas para uma história da hagiografia em português: os séculos XIII e XIV. In Cadernos de Literatura Medieval. CLP. Hagiografia. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa, 2015.
³  CCLXVI/ANTT, ms. da Livrª nº 2274.
⁴ http://w3.restena.lu/cul/VSE/VSE/001VSE.html. Acesso em 7 de setembro de 2019.

Ana Maria e Silva Machado
Universidade de Coimbra

Edições Modernas

COON, Linda. Sacred Fictions: Holy Women and Hagiography in Late Antiquity, Philadelphia – Pennsylvania, University of Pennsylvania Press, 1997.

JÚDICE, Nuno. O Espaço do Conto no Texto Medieval, Lisboa, Editora Vega, 1991.

Machado, Ana M. “Memory, Identity and Women's Representation in the Portuguese Reception of Vitae Patrum: Winning a Name”. In: M. Cotter-Lynch, and B. Herzog, Reading, Memory and Identity in the Texts of Medieval European Holy Women. New York, Palgrave Macmillan, 2012, pp. 150-152.

Sobral, Cristina, “O modelo discursivo hagiográfico” In: Modelo. Actas do V Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Porto, Faculdade de Letras, 1995, pp. 97-107.

Vida de Eufrosina, edição de Josiah H. Blackmore. In: Ivo Castro et al., “Vidas de santos de um manuscrito alcobacense (II).” In: Revista Lusitana, Nova Série (Lisboa), 5 (1984-1985), pp. 47-55.


Trecho traduzido e modernizado

Na cidade de Alexandria viveu um homem que tinha nome Panúncio, muito honrado e que cumpria bem os mandamentos de nosso Senhor. Este bom homem, tomou por esposa uma mulher que obedecia a sua linhagem, mulher honesta e de bons costumes, mas era maninha e não paria. E o marido estava em grande sofrimento porque não tinha para quem deixar sua riqueza depois da sua morte para que os seus bens fossem bem mantidos, e dava muitas esmolas aos pobres, ia com muita frequência às Igrejas, praticava jejum e orava rogando ao Nosso Senhor que lhe desse filho. E outrossim a sua mulher dava muito aos pobres e nos oratórios rogava a Deus que atendesse o seu desejo. E o bom homem Panúncio andava procurando algum santo homem que conseguisse ganhar aquela graça de nosso senhor por suas orações. E nesta busca chegou a um mosteiro no qual ouviu dizer que vivia um abade muito santo. E Panúncio ali fez doações para Deus e houve grande amor entre ele o abade e os frades. E depois de muito tempo falou com o abade de todo seu desejo, e o abade ouvindo pediu a Nosso Senhor que lhe desse o fruto, e Deus ouviu as orações de ambos e deu-lhe uma filha […].


Autor do documento:  Desconhecido, compilado por Farciso do Monte

Título do documento: Vida de Santa Eufrosina [COLECÇÃO HAGIOLÓGICA]

Data da composição: Século V, compilação século XV

Lugar da composição ou impressão: Ordem de Cister. Mosteiro de Santa Maria (Alcobaça)

Imagem: Primeira página do documento da Biblioteca Nacional de Portugal.  


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