O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Tratado contra las hadas de Alfonso de Valladolid

ALFONSO DE VALLADOLID. Tratado contra las hadas. Espanha: finais do século XIII início do século XIV.

O breve tratado “en cómmo dizen que non ay fadas nin ventura nin ora mala", nomeado de “Contra las hadas” por Walter Mettmann, aponta a contrariedade ao que se entendeu como augúrio ou, de maneira mais abrangente, fatalismo, significados mais amplos da palavra fada ou hada, que também foi utilizada para designar a figura mitológica que revelava ou criava o destino. O tratado está conservado em dois manuscritos escorialenses: o h.III.3, fs. 197r-205r, e o P.III.21, fs. 35r-38r. Há, ainda, uma cópia da obra na Biblioteca Nacional de Madrid, o Ms. 9302, f. 214v.

 A autoria do tratado, também referenciado como "De las fadas et ventura", foi atribuída, por diversos estudiosos, a São Pedro Pascual. É o que afirmou, por exemplo, Pedro Armengol Valenzuela nas Obras do santo publicadas em 1905. Do mesmo modo, nomes como os de Nicolás Antonio e Amador de los Rios, creditaram a obra ao santo bispo de Jaén, que foi capturado e mantido em cativeiro por muçulmanos em Granada e cuja existência é questionada atualmente.¹ Por outro lado, a tese que indica o Mestre Afonso de Burgos (Alfonso de Valladolid) como autor do tratado contra as fadas foi propagada por pesquisadores como Menéndez Pidal² e Fritz Yitzhak, com base no critério simplista da falta de contiguidade entre o Tratado contra las hadas e a Glosa del Pater Noster de Pedro Pascual, e nas coincidências do primeiro texto com o Libro de las tres creencias, de Afonso de Valladolid. A referência da Real Biblioteca del Monasterio de el Escorial sobre o “Libro de las tres creencias y Tratado contra las hadas” (ms.h - III – 3) aponta justamente que o judeu converso, conhecido anteriormente como Rabí Abner ou Amer de Burgos, escreveu o tratado entre o final do século XIII e início do século XIV, quando era sacristão da Igreja Colegiada de Valladolid. 

No entanto, se de um lado a autoria de Pedro Pascual foi fortemente contestada, de outro, a de Afonso de Valladolid também foi posta em questão. Um ponto desfavorável a Valladolid seria a função mais técnica do Fadas, discrepante com seus outros escritos que recorreram ao Talmud e ao Midrash, bem como aos filósofos ou historiadores hebreus. Essas ausências e a redação em romance, provavelmente, serviu a auditórios e a leitores com formação doutrinal inferior. Além disso, o Fadas é um tratado convencionalmente antideterminista, e outras obras de Valladolid, como o Libro del Zelo de Dios, defendem a predestinação, entendida como determinismo astrológico, ou seja, tratam da onisciência divina e do livre arbítrio, mas salientam o valor de uma disciplina que podia fazer prognósticos como a astrologia e que sustentava o pensamento judeu do século XIV. Fadas, entretanto, parece dirigir-se fundamentalmente a cristãos em busca de instrução básica nas verdades de sua religião,³ feito para consumo externo e não para o questionamento ou aprimoramento pessoal do autor. 

Ryan Spziech⁴ dissertou com afinco sobre a controvérsia da autoria dessa obra, recorrendo a Carpenter como defensor da escrita de Afonso de Valladolid e a Mettmann como detrator dessa atribuição, passando igualmente por Sainz de la Maza, que reforça a dificuldade em convergir para uma das teses.⁵ Afinal, conclui que a rejeição da atribuição do trabalho a Afonso, para o MS 9302 da Biblioteca Nacional de Madrid (Libro de las tres creencias e Libro declarante) e consequentemente para o Tratado contra las Hadas, é apressada, e que, a menos que se revelem novos manuscritos, não há evidências suficientes para aceitar com certeza a atribuição a Afonso ou descartá-la imediatamente. Um aspecto interessante e que suplanta a questão da autoria é aquele destacado por Carlos Sainz de la Maza: a propagação, sobretudo, do pensamento antijudaico da época. Em seus apontamentos sobre a edição da obra, o estudioso chama a atenção para a existência, na parte final do tratado contra as fadas, de uma mudança radical na orientação do texto. Em sua opinião, essa virada repentina parece “o resultado de uma intervenção que buscava converter o tratado original em um escrito antijudaico⁶”; assim, não o considera um escrito doutrinal, ou um meio de ensinar uma verdade do dogma cristão, mas sim uma forma de refutação da crença no determinismo,⁷ tendo em conta a crença dos judeus nas influências dos astros no porvir através do dia ou do horário do nascimento de cada pessoa.

De fato, diversos religiosos da Península Ibérica preocuparam-se, no século XIII, com a questão da relevância do livre-arbítrio para o cristão e, no final desse século, o Tratado contra las hadas propaga justamente a importância desse preceito como fundamento da ideia do homem como a melhor das criaturas, a mais semelhante a Deus: 


Se assim fosse como os sábios mentirosos dizem, que o homem não tem em si poder nem arbítrio de fazer bem ou mal, davam a entender os ditos sábios que, de todas as criaturas que Deus criou, não havia criatura mais diminuída que o homem [...]. E Deus mesmo não quis ter poder sobre o homem, para lhe fazer por força ser bom ou mau, pois quanto menos quisesse nem desse poder a nenhum planeta, nem prece, nem signo, nem fada, nem nenhuma coisa das sobreditas, quem teria poder ou senhorio sobre o homem?⁸


Essa enérgica defesa do potencial do livre-arbítrio vem reafirmar a responsabilidade humana perante as próprias ações, de forma que o senhorio sobre o homem viria dele próprio, do seu desejo de evitar os pecados, ou melhor, de sua escolha por uma vida virtuosa, avessa aos vícios e na qual as interpretações decorrentes das artes supersticiosas não teriam impacto. Otratado portanto, expõe uma controvérsia sobre a existência de “fadas e ventura e oras minguadas e signos e planetas” que poderiam determinar as vidas dos homens, para mostrar, justamente, a falsidade dessas crenças, pelas quais “o diabo traz escondidos muitos anzóis com que pesca as gentes do mundo e as leva ao inferno”⁹. Portanto, dado que o homem tinha a capacidade de escolher entre o bem e o mal, seu desafio era honrar seu compromisso de agir sempre de acordo com certos preceitos morais diante de qualquer situação que se apresentasse, reagindo com resignação quando punido e com gratidão quando agraciado, sem procurar escusas em causas secundárias.

¹  Cf. RIERA I SANS, J. La doble falsificació de la portadella d'un incunable (Haim 12433). Revista de Libreria Antiquaria, 10, 1985, 5-17, esp. 5-8.  
²
 MENÉNDEZ PIDAL, Ramón. Sobre la bibliografía de San Pedro Pascual. Bulletin Hispanique 4, 1902, p. 297-304.
³
 SAINZ DE LA MAZA, Carlos F. Apuntes para la edición del tratado Contra las hadas atribuido a Alfonso de Valladolid (Abner de Burgos), 1990. Incipit vol. 10, 1990, p. 113-119
 SPZIECH, Ryan. Entradas da Enciclopédia sobre "Alfonso de Valladolid / Abner de Burgos". In THOMAS, David; MALLETT, Alex. Christian-Muslim Relations: A History Bibliographical, IV: 1200-1350. Leiden: Brill, 2012. p. 955-76. 
 SAINZ DE LA MAZA, Carlos F. La reescritura de obras de polémica antijudía. El “Libro de las tres creencias” y unos “Sermones sorianos”. Cahiers d’Études Hispanisc Médiévales, 29, 2006 p. 156.
 SAINZ DE LA MAZA, Carlos F. Alfonso de Valladolid: edición y estudio del manuscrito “Lat. 6423” de la Biblioteca Apostólica Vaticana. Madrid: Ed. Universidad Complutense, 1990.
 MÁRQUEZ GUERRERO, María. Los conceptos de análisis del discurso aplicados a un texto histórico. El tratado Contra Hadas del siglo XIV. Cahiers d'études hispaniques médiévales. N°30, 2007. p. 321-347.
 Códice h-iii-3 do Escorial.
 Ibidem.


Simone Ferreira Gomes de Almeida
Fundação Biblioteca Nacional - FBN

Edições Modernas

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ARMENGOL VALENZUELA, Pedro. Obras de S. Pedro Pascual, mártir, obispo de Jaen y religioso de La Merced: en su lengua original. Universidade da Califórnia, 1905.

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RIERA I SANS, J. La doble falsificació de la portadella d'un incunable (Haim 12433). Revista de Libreria Antiquaria, 10, 1985, 5-17, esp. 5-8.  

SAINZ DE LA MAZA, Carlos F. Apuntes para la edición del tratado Contra las hadas atribuido a Alfonso de Valladolid (Abner de Burgos), 1990. Incipit vol. 10, 1990.

SAINZ DE LA MAZA, Carlos F. La reescritura de obras de polémica antijudía. El “Libro de las tres creencias” y unos “Sermones sorianos”. Cahiers d’Études Hispanisc Médiévales, 29, 2006 p. 156.

SAINZ DE LA MAZA, Carlos F. Alfonso de Valladolid: edición y estudio del manuscrito “Lat. 6423” de la Biblioteca Apostólica Vaticana. Madrid: Ed. Universidad Complutense, 1990.

SPZIECH, Ryan. Entradas da Enciclopédia sobre "Alfonso de Valladolid / Abner de Burgos". In THOMAS, David; MALLETT, Alex. Christian-Muslim Relations: A History Bibliographical, IV: 1200-1350. Leiden: Brill, 2012. p. 955-76. 

Trecho traduzido e modernizado

Transcrição¹⁰ 

/197r/Agora sabemos e esquadrinhamos, com o poder e virtude de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, quais são as fadas, os signos e os planetas, e de onde vêm o bem e o mal dos homens. 

Existem sábios que dizem que todo o bem ou mal que os homens passam neste mundo já lhes é profetizado, ordenado¹¹ e julgado por Deus a cada um; isto é, são profetizadas todas aquelas coisas boas e más pelas quais os homens passam. E existem outros sábios que dizem que todo o mal que o homem passa vem por virtude do signo, do planeta, do dia ou da noite em que foram engendrados. E existem outros que dizem que é por virtude da hora em que nasceram; e outros dizem que são fadas que fadam¹² aos homens e às mulheres quando nascem. E agora prestem atenção os que entendimento tendes,¹³ pois pela razão entenderdes qual foi o sábio que o disse, e verdes pela obra qual foi o mestre que o fez. E como dizem os sábios mencionados, eles dizem que eles veem pela virtude das coisas acima ditas; dizem que eles veem aquele que há de ser mau e bom,¹⁴ rico ou pobre, que há de viver muito ou pouco, aquele que há de fazer boas ou más obras e aquele que há de ser salvo ou perdido. E bem de pouca e vã sabedoria /197v/ são tais sábios como estes que fazem as gentes crer nesta crença.


¹⁰  Transcrição cedida por Leandro Alves Teodoro que publicará a obra traduzida na íntegra em: Guias dos costumes cristãos da Coroa de Castela. O Espejo del alma e outros opúsculos pastorais. Uma antologia dos séculos XIII, XIV e XV.
¹¹
 “el bien o el mal que pasan los omes en este mundo, que les es ya profetizado e ordenado”.
¹² “v. a. Vaticinar, dar noticia de las cosas futúras y venideras: lo que executaban las Hadas por arte diabólica. Latín. Fatari. Fata canere”. “Hadar”. In: REAL ACADEMIA ESPAÑOLA. Diccionario de autoridades (1726-1739). Versão eletrônica. Disponível em: <<http://web.frl.es/DA.html>>. 1734, t. 4; “(l. fatare). tr. s. XV. Determinar el hado uma cosa”. “Hadar”. In: MARTIN ALONSO. Diccionario medieval español, t. 2, p. 1224; “tr. desus. Dicho del hado: Determinar algo”. “Hadar”. In: REAL ACADEMIA ESPAÑOLA. Diccionario de la lengua española, t. 2, p. 1186; “vaticinar los hados de uno”. “Hadar, Fadar”. In: CEJADOR Y FRAUCA, D. Julio. Vocabulario medieval castellano. Madrid: Visor, 2005, p. 223. 
¹³
 “Et agora parad mjentes los que entendimiento avedes”.
¹⁴
 “Et como dizen los sabios de suso dichos, dizen que fallan ellos que por la virtud de las cosas suso dichas, dizen que fallan ellos el que a de ser malo”.

Autor do documento: Alfonso de Valladolid (?)

Título do documento: Libro de las tres creencias y Tratado contra las hadas

Data da composição: finais do século XIII início do século XIV

Lugar de composição ou impressão: Biblioteca do Conde-Duque de Olivares 

Imagem: manuscrito h - III - 3 da “Real Biblioteca del Monasterio de el Escorial”.