O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Sinodal de Aguilafuente

D. JUAN ARIAS DÁVILA. Sinodal de Aguilafuente. Segóvia: 1472.

No começo do mês de junho de 1472, quando gozava de prestígio junto à corte do rei D. Henrique IV e assumia um importante papel na Coroa como reformador dos costumes eclesiásticos, D. Juan Arias Dávila celebrou seu primeiro sínodo na diocese de Segóvia. Foi na cidade de Aguilafuente que organizou essa assembleia eclesiástica e apregoou um conjunto de vinte e nove constituições sinodais a respeito de diferentes temas concernentes à vida do clero segoviano e dos fiéis leigos, destacando, entre outros assuntos, o ensino dos rudimentos da doutrina cristã, a vestimenta dos clérigos, a maneira considerada correta de realizar uma procissão e a proibição dos casamentos clandestinos. 

Esse conjunto de constituições sinodais notabiliza-se especialmente por ser o primeiro livro conhecido a ser impresso na Coroa de Castela. Publicada no mesmo ano da celebração do sínodo pelo impressor Juan Parix de Heidelberg, essa obra lança luz sobre o cotidiano daquela diocese e, ao mesmo tempo, apresenta uma série de medidas que tinham de ser adotadas para que os leigos expressassem melhor a sua fé e os clérigos conseguissem transmitir a palavra de Deus ao Seu povo. Ao agir nessas duas frentes, reforma do clero e das práticas cotidianas dos fiéis leigos, o livro em questão atendia ao que se esperava de uma obra desse gênero e se tornava uma das peças-chave da política pastoral da Igreja em um momento em que se cobrava dos prelados diocesanos uma ação mais consistente e eficaz na formação dos curas de almas e no combate dos pecados praticados pelos próprios eclesiásticos beneficiados das igrejas colocadas sob sua guarda e responsabilidade. A obra começa com uma singularidade que chama a atenção, ou seja, uma grande lista com nomes de participantes do sínodo e de suas respectivas funções na diocese – uma lista que ajuda a avaliar o perfil daquele auditório admoestado por D. Juan Arias Dávila. 

No que diz respeito à formação do clero, esse prelado anunciou certas medidas com o objetivo de o simples clérigo aprendesse os rudimentos de seu ofício. Depois de quatro meses, os curas de almas, os reitores e todo tipo de beneficiado teriam de começar a estudar o latim, a gramática e o canto. Adiante, o mesmo bispo elabora uma série de admoestações para convencer o clérigo a se preocupar não apenas com a sua formação, mas também com a sua aparência, cuidando de sua vestimenta e de seus gestos. Por isso, o eclesiástico, além de utilizar roupas honestas, deveria conter a dor decorrente da perda de um parente ou amigo e evitar panos ou expressões físicas que sinalizariam o luto. 

D. Juan Arias Dávila voltou a celebrar dois outros sínodos na condição de bispo de Segóvia, em 1478 e 1483, mas foi o sínodo de 1472 que mais marcou a sua trajetória eclesiástica. Foi nessa assembleia que ele divulgou constituições sinodais que resumiam diferentes ângulos da política pastoral conduzida pelos prelados diocesanos da Coroa de Castela no século XV.


Leandro Alves Teodoro
UNICAMP

Trecho traduzido e modernizado

Na doutrina é natural que o princípio de cada coisa. 

Segundo se contém na Sagrada Escritura e nos estabelecimentos dos sacros cânones, formou Nosso Senhor o homem no começo do mundo a Sua semelhança. E depois de sua transgressão, criou logo a lei natural, com que ele e todo homem fosse guiado e endereçado a temer e obedecer e servir a seu criador, e viver justamente e sem dano de seu próximo. Sucederam depois outras leis em diversas idades e tempos, convém a saber a lei e direito chamados das gentes, e a lei mosaica e Testamento velho, e a lei evangélica e apostólica, em que consiste o Novo Testamento.   



Autor do documento: D. Juan Arias Dávila

Nome do documento: Sinodal de Aguilafuente

Data da composição: 1472

Lugar de composição ou impressão: Segóvia

Imagem: capa microfilme Biblioteca Nacional de Espanha