O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Miraculos Romançados

Atribuído a Pero Marín Santo Domingo de Silos, Burgos, Espanha. Século XIII

Trata-se de uma coleção de 89 milagres post mortem, elaborada durante à segunda metade do século XIII, os milagres foram realizados por intercessão de São Domingo de Silos. Dentre eles destacam-se, pelo seu grande volume, os prodígios de libertação de cativos. Com efeito, embora, como já foi estudado, outros santos intervieram de uma forma ou de outra em apoio as tropas cristãs contra os muçulmanos, nesta ocasião, e sem esquecer nunca a referência a estes mencionados, dá-se um passo a mais, até que se  converta o santo silense em redentor e libertador de cristãos cativos.

A obra conserva-se em dois manuscritos. O mais antigo, que foi elaborado nos finais do século XIII, é parte de um códice factício dedicado a vida e aos milagres de Santo Domingo de Silos, em que se incluem copias da Vita Dominici Silensis de Grimaldo e a Vida de Santo Domingo de Silos de Gonzalo de Berceo. Está conservado na Biblioteca Monástica silense, com a assinatura ms.12. O segundo manuscrito encontra-se na Biblioteca da Real Academia Española, com a assinatura ms.5, e foi copiado entre os séculos XIV y XV. Esta coleção de milagres foi editada em duas ocasiões: no século XVIII, frei Sebastião de Vergara a incluiu entre os anexos de sua biografía de Santo Domingo; e em 1988 foi publicada aquela que até agora é a única edição crítica disponível da obra, elaborada por Anton Karl-Heinz. 

Todos os prodígios seguem o mesmo padrão: um ou vários cristãos caem nas mãos de muçulmanos, que os levam cativos e são milagrosamente libertados, após suplicarem a ajuda de Deus e do santo. Este esquema geral corresponde ao que podemos observar no capítulo XXI do segundo livro da VDS de Grimaldo, que narra a libertação de Servando de Cuzcurrita, prisioneiro dos infiéis em Medinaceli. Como narrado neste episódio, São Domingos aparece na masmorra em que aquele se encontrava e garante que veio em seu socorro, de forma que lhe fornece os instrumentos necessários para libertá-lo de suas correntes. Consequentemente, no dia da dedicação da igreja do mosteiro de Silos, sendo já um homem livre, Servando de Cuzcurrita entregará estes instrumentos e os grilhões como ex-voto¹. Esta prática deve ter conhecido um amplo desenvolvimento durante a segunda metade do século XII, quando o número de oferendas semelhantes aumentou consideravelmente. Esses
presentes foram expostos no mosteiro de Burgos, fato a que Rodrigo de Cerrato também aludiu em sua abreviatura da vida de Santo Domingo. Esses presentes foram expostos no cenóbio de Burgos, fato a que Rodrigo de Cerrato também aludiu em sua abreviatura da vida de Santo Domingo².

A fama do santo abade como redentor dos cativos atingiu tamanha proporção que também se refletiu no Chronicon Mundi com o seguinte teor: “parece trazer mais glória do que os outros santos ao libertar os cativos da prisão dos mouros”³.

Assim começa uma tradição que marcará a especialização do santo como libertador de cativos, cujo apogeu seria alcançado com a redação dos Miraculos Romançados. Não se trata, entretanto, de uma tipologia de milagre estranha ou subdesenvolvida no mundo cristão medieval, uma vez que temos uma infinidade de testemunhos referentes a cativos libertados por intercessão de um santo ou santa. Na França, por exemplo, além da capacidade “especial” de Santa Fé de Conques para libertar cativos, encontramos um testemunho em que Santo Eutrópio milagrosamente transportou um cruzado capturado pelos infiéis para sua igreja em Saintonge, e uma coleção completa de milagres de São Marçal em que se narram as libertações de franceses capturados pelos ingleses no decorrer da Guerra dos Cem Anos⁴. Muitos desses prodígios coletados pela hagiografia medieval referem-se a prisioneiros injustamente encarcerados, bem como a prisioneiros de guerra ou presos em confrontos por fronteiras.
No caso hispânico, em que a fronteira com o mundo muçulmano será especialmente próxima e os confrontos serão frequentes, os milagres de libertação adquiriram um significado especial. Devemos ter em mente que, embora seja difícil quantificar este fenômeno histórico nos confrontos fronteiriços entre cristãos e muçulmanos na Península Ibérica e, posteriormente, no Norte de África, dispomos de alguns estudos que exploraram esta questão. Por exemplo, Calderón Ortega e Díaz González indicam o número máximo de cativos em um único confronto do período do século XIII, cerca de 20.000⁵.
Assim é possível encontrar vários exemplos desta tipologia de prodígios, embora com um desenvolvimento menor, alguns, inclusive, nas proximidades do mosteiro silense. Um milagre semelhante é atribuído a Santo Inácio de Oña, em que um cristão cativo é libertado por intercessão do abade após sua morte. Outro santo associado a uma capacidade especial para realizar este tipo de milagres é Santo Domingo da Calçada, a quem se atribui um total de três redenções, todas protagonizadas por cativos originários de La Rioja⁶.

Não é de estranhar que neste ambiente proliferassem narrativas que, no fundo, reuniam as fugas de cativos cristãos que, dada a dificuldade ou quase impossibilidade de realização, foram atribuídas à intervenção divina; tampouco não é de estranhar que tenham sido recolhidos por escrito com fins publicitários ou, por outras palavras, com o intuito de atrair um maior número de fiéis aos mosteiros e santuários onde se guardavam as relíquias dos santos aos quais estavam associadas uma capacidade de intercessão em favor dos cativos. Além disso, não se deve esquecer que, desde o final do século XII, o papel das ordens redentoristas esteve presente no pensamento religioso, centrado exclusivamente nesta tarefa de libertação e resgate de prisioneiros cristãos em mãos de muçulmanos.

Ao avaliar as motivações que levaram ao silense Pero Marín a recopilar os testemunhos que compõem os Miraculos Romançados, é inevitável levar em conta que novos atores entraram em cena, entre os quais destacaram-se, especialmente, os mosteiros de Trindade e da Misericórdia, fundados respectivamente nos anos 1188 e 1218. Ambos conhecerão uma expansão rápida e terão uma presença muito proeminente nos territórios próximos à fronteira com Granada a partir da segunda metade do século XIII, quando a expansão cristã para o sul abranda e os conflitos se instalarão neste espaço geográfico⁷. As vias que serão usadas para cumprir seus objetivos serão principalmente duas: o pagamento de resgates, cujo valor viria de esmolas, e a troca de seus membros pelos cativos que pretendiam libertar, prática carregada de um enorme simbolismo por envolver uma forma de martírio voluntário⁸.

Neste contexto, competir no plano ideológico com os grandes monastérios, mais ou menos próximos, que fizeram grandes esforços para criar uma identidade própria de certa notoriedade, e com os religiosos redentoristas devia ser essencial para garantir a chegada de peregrinos e doações ao mosteiro silense que, de outro modo, teria como destinatários os centros religiosos que, com o passar do tempo, foram adquirindo uma marca notável. Em minha opinião, uma boa forma de atingir esse objetivo seria valorizar a imagem do santo abade como libertador de cativos mediante uma coleção centrada nesta tipologia de milagre. Esta deve ter sido, pelo menos em parte, a ideia básica para a criação e recompilação dos Miraculos.

Entre os milagres de libertação de cativos coletados nos MR, foi registrado um prodígio no qual o próprio rei castelhano esteve envolvido, e cujo resultado documental se configurará como um privilégio sobre a cobrança da martiniega coletada junto com outros apócrifos, incluindo os de Fernán González, no Cartulário Gótico.

Segundo o milagre número 4 da coleção promovida por Pero Marín, o rei Afonso X chegou a Silos em 5 de novembro de 1246, e lá ficou esperando o recrutamento de tropas para enfrentar a revolta de Lope Díaz de Haro, senhor de Biscaia. Diante das dúvidas que atormentavam o monarca, Santo Domingo apareceu-lhe em sonhos “depois das matinas”. Um diálogo foi estabelecido entre eles, em que o santo finalmente disse ao rei que ele alcançaria a vitória e a supremacia sobre o restante dos príncipes peninsulares passados três meses (“III lunaziones conplida”¹⁰). Depois de acordar, o rei se aproximou para orar diante do sepulcro onde suas relíquias estavam conservadas, e prometeu dar ao monastério “um dom que não foi dado por nenhum rei a este mosteiro”¹¹.Com efeito, o castelhano venceu os seus adversarios, tal como Domingo havia anunciado na sua visão, e cumpriu a promessa feita aos restos mortais do santo concedendo ao mosteiro a arrecadação da martiniega da vila de Silos, que até então correspondia à Coroa¹²:

E Abade, concedo-lhe a martiniega que eu na vila de Santo Domingo, por Juramento de Herança, doei para você e para o convento e para todos os seus sucessores que depois de você venham, e para aqueles que reinarem depois de mim em Castela e em Leão para sempre.

A narração deste milagre apresenta Afonso X como um rei devoto, que movido por esse sentimento vai ao sepulcro do santo para rogar por sua intercessão em favor de seus interesses¹³. A aparição de Domingo e a sua revelação atuam como uma confirmação da sua capacidade especial para intervir nos assuntos castelhanos, elevando-se como seu protetor. O relato também serve para justificar a doação da martiniega do burgo de Silos numa época em que o mosteiro precisava de evidências documentais para justificar seus privilégios. Uma vez obtido o privilégio, foi incluído no Cartulário Gótico junto com o resto dos diplomas confirmados por Afonso X, entre os quais estava também o falso fundacional de Fernán González¹⁴.

¹ Ed. Valcárcel 1982, pp. 356-360.
² Pérez-Embid, 2017, p. 250.
³ Coletado também por Uría Maqua (www.vallenajerilla.com/berceo/uria/domingosalvalafrontera.htm), que utiliza a citação desde la edición traducida preparada por Puyol, 1926, p. 6.
 Citamos alguns exemplos a partir de Bartlett, 2013, pp. 398-400.
 Tomamos essa data a partir das tabelas de resumo de Calderón Ortega e Díaz González, 2012, pp. 56-57.
 Se trata dos milagres 22, 54 y 67 de González de Tejada, 1702, pp. 217, 270 y 296. Depois da narração do primeiro destas três maravilhas, o autor assinala que “este milagro que le refieren los Autores, que escriben la vida de nuestro Santo, está esculpido, y pintado, en algunas partes de nuestra Santa Iglesia, y por él antiguamente, la Iglesia, y Villa de Santo Domingo, ponían por armas en los instrumentos, una Imagen del Santo con grillos en las manos, y un Cautivo arrodillado u sus pies, y aun hoy dura este sello”.
 Calderón Ortega e Díaz González, 2012, p. 231. No caso específico dos mercedários, é de grande interesse o estudo de Brodman, 1986. 
 Neste sentido, devemos rever o estudo de Escribano López, intitulado “Mercedarios y martirio voluntario en el Norte de África en la Baja Edad Media” e apresentado no III Congreso Internacional “El Camino del Medievalista”, celebrado na Universidad de Santiago de Compostela em abril de 2019, de publicação próxima.
 Transcrevemos a partir de Silos, Ms.12, f. 25v; ver também Ed. Anton, 1988, p. 44. 
¹⁰ Silos, Ms.12, f. 25v; ver também Ed. Anton, 1988, p.44.
¹¹ Silos, Ms.12, f. 26r; ver também Ed. Anton, 1988, pp. 44-45.
¹²  Silos, Ms. 12, f. 27r; ver também Ed. Anton, 1988, pp. 46.
¹³ Na mesma linha se expressa García de la Borbolla 2003, p. 459. O autor refere-se, como prova da devoção do rei a Santo Domingo de Silos, ou pelo menos de um especial carinho pelo santo e pelo seu mosteiro, às cantigas 204 e 233. Disponíveis em: http://www.cantigasdesantamaria.com/csm/204 e  http://www.cantigasdesantamaria.com/csm/233) (última consulta 16/08/2020). 
¹⁴  Arizaleta 2007, p. 464.  

Isabel Ilzarbe
Universidad de La Rioja

Edições Modernas

ANTON, Karl-Heinz. Los “Miraculos romançados” de Pero Marín. Edición crítica, introducción e índices. Burgos: Abadía de Silos, 1988.

ARIZALETA, Amaia. “Las variantes del relato maravilloso en los Miraculos romançados, atribuidos a Pero Marín (segunda mitad del siglo XIII)”. In: Pratiques hagiographiques dans l'Espagne du Moyen Âge et du Siècle d'Or. Touluose: Université de Toulouse- Le Mirail, 2005, pp. 55-86.

_______. “De monges y monarquía: comentarios en torno a miraculos romançados, 4”. In: El monacato en los reinos de León y Castilla (siglos VII-XIII). León: Fundación Sánchez-Albornoz, 2007, pp. 479-494. 

CALDERÓN ORTEGA, José M.; DÍAZ GONZÁLEZ, Francisco J. Vae Victis: Cautivos y prisioneros en la Edad Media Hispánica. Alcalá de Henares: Servicio de Publicaciones de la Universidad de Alcalá de Henares, 2012.

ESCALONA, Julio. “¿Un ‘cartulario milagroso’?: cronología y proyecto en los ‘Miraculos Romançados’ de Santo Domingo de Silos?” In: JARDIN, Jean-Pierre; ROCHWERT-ZUILI, Patricia; THIEULIN-PARDO, Hèléne (coord.). Histoires, femmes, pouvoirs: Péninsule ibérique (IXe-XVe siècle): mélanges offerts au professeur Georges Martin. Paris: Classiques Garnier, 2018, pp. 159-199.

GARCÍA DE LA BORBOLLA, Ángeles. “Santo Domingo de Silos, el santo de la frontera. La imagen de la santidad a partir de las fuentes hagiográficas castellano-leonesas del siglo XIII”. Anuario de Estudios Medievales, 31/1, 2001, pp. 127-145.

GONZÁLEZ DE TEJADA, José. Historia de Santo Domingo de La Calzada, Abrahán de la Rioja. Madrid: Viuda de Melchor Álvarez, 1702.

PÉREZ-EMBID, Javier. Santos y milagros: la hagiografía medieval. Madrid: Síntesis, 2017.

ROQUE CABANES, Patricia. Tipología del milagro en los Miraculos Romançados de Pero Marín. Lleida: Universidad de Lleida, 2017. 

URÍA MAQUA, Isabel. “El que dizen de Silos que salva la frontera”. Revista de literatura medieval, 7, 1995, pp. 159-172.

Trecho traduzido e modernizado

Transcrição

Estes são os milagres romanceados de como Santo Domingo retirou os Cativos da prisão. E atribuiu a Pero Marin, monge do monastério a tarefa de escrevê-los.

Como Retirou de Granada Pelayo de Gradana. 

Era de mil e duzentos e setenta anos, encontrava-se um cativo em Granada que tinha nome Pelayo, e jazia por quatro anos. E em um sábado a noite quando cantou o primeiro galo veio a moura cafra, senhora que o mantinha na prisão e mandou que colocasse umas madeixas para cozinhar para que fossem torcidas no domingo de manhã, caso contrário ele receberia quarenta açoites. O cativo fervendo as madeixas deu um grande suspiro e a moura perguntou: porque susupiras agora? Disse o Cativo que os cristãos em tal dia, domingo, ficavam alegres e não trabalhavam, e que se agora estivesse em minha terra não ferveria madeixas e sim tiraria folga. A moura disse filho de uma cadela, quando esta caldeira estiver na sua terra então farás do modo de lá. Disse o cativo que sim, mas a moura disse que ele nunca iria para lá e se as madeixas não fossem fervidas amanhã ele teria um péssimo dia. E a moura foi deitar. E o cativo acendeu o fogo no primeiro canto do galo e entrou fortíssima claridade pela casa e o cativo teve grande medo e orou a Deus e a santo Domingo. E disse uma voz: filho vá andar que Deus deu a você muita mercê. Disse o cativo e quem sois vós? Disse a voz eu sou Santo Domingo toma essa caldera e a leve para a minha casa porque a quero para mim. Tomou o cativo a caldeira e deixou as madeixas próximas do fogo e saiu seguindo a claridade e encontrou a porta do curral aberta e também as portas da villa. E enquanto durou a noite nunca a claridade se afastou dele. No dia fatal que chegou na terra dos cristãos levou a caldera ao monastério e esta à cabeça/23v do Corpo santo e oferecem nela água benta.


Original

Estos son los miraculos romançados commo saco Santo Domingo los Cativos de Captividad. E fizo los escrivir Pero marin, monge del monesterio.

Como saco de Gradana a Pelayo

Era de mil e dozientos e setenta annos yazia um cativo em Granada que avia nonbre Pelayo, e yogo y quatro annos. E un sabado anoche quando al primo gallo vino Cafra la mora su sennora o yazia en la prision e mandol que metiesse vnas madexas a cozer. que fuessen cochas al domingo mannana. si non quel faria dar quarenta açotes. El catiuo coziendo las madexas dio un grant sospiro e dixo la mora por que sospirest agora. Dixo el Catiuo los cristianos en tal dia como eras domingo auemos alegria e non labramos. e si agora fues en mi tierra. non cozería madcxas. e abria folgura. Dixo la mora fide perro. quando esta caldera fuere en tu tierra. enton,;e yras tu alla. Dixo el catiuo e quando ella fuereyre yo. dixo la mora si. mas tu alla nunqua yras e si las madexas eras mannana non fueren cozidas el mal dia todo sera tuyo. Et la mora fues a echar. E o cativo acendeu o fogo canto el primero gallo e entro muy grant claridat por la casa e el catiuo ouo grant miedo. e acomendosse a dios. e a santo domingo. Et dixo una boz: fijo. vete andar. que dios te a fecha mucha merçet. Dixo el catiuo e qui sodes vos. Dixo la boz. yo so Santo domingo. toma essa caldera e lieua la ala mi casa. cala quiero para mi. Tomo el catiuo la caldera e dexo las madexas çerca del fuego e sallio en pos la claridat e fallo la puerta del corral abierta e las puertas dela villa. e quanto duro la noche. nunqua se quito la claridat del. fatal dia. que fue en tierra de cristianos. aduxo la caldera al monesterio e esta ala cabeca/23v del Cuerpo santo e tienen enella agua benita.


Autor do documento: Pero Marín

Título do documento: Miraculos Romançados

Data de Composição: século XIII

Lugar de composição ou impressão: Santo Domingo de Silos, Burgos, Espanha