O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Livro dos Usos da Ordem de Cister de 1415

FREI ESTEVÃO ANES. Livro dos Usos da Ordem de Cister. Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, Portugal: 1415.

O Livro dos Usos da Ordem de Cister é uma obra integrante do acervo digital da Biblioteca Nacional de Lisboa, produzida no século XV, nomeadamente em 1415, copiada pelo conhecido Frei Estevão Anes, auxiliado por João, o cisterciense. O manuscrito possui um léxico concentrado nas atividades diárias de um grupo social muito importante para a conformação histórica da Idade Média portuguesa, em especial por trazer à tona hábitos cotidianos, formais e informais, a que se sujeitavam seus membros e integrantes, todos da importante Casa de Cister. Sob a cota 208, o documento integra a coleção de códices alcobacenses da Biblioteca Nacional de Lisboa, composta pelas obras que faziam parte da biblioteca do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, até 1834, quando as ordens religiosas foram expulsas de Portugal. A edição fac-similar a cores está disponível no acervo digital da Biblioteca Nacional de Portugal no seguinte endereço eletrônico: <http://purl.pt/15004/1/>. O manuscrito em pergaminho ilustrado e colorido tem as dimensões de 275 por 182 mm; letra gótica, com iniciais filigranadas a azul e vermelho. Segundo o registro da Biblioteca Nacional de Portugal, a obra é constituída pelas seguintes partes: [Prólogo]: “O muito uirtuoso padre sam bernardo abbade de claraval mandou aos seus monjes [...]” (f. I); “tauoa de capitulos” (Iv.-IV); “Liber ad Usum Cisterciensium” (f. IVv.-CII); “Distinctio quinta” “Da commemoraçam de santa maria” (f. CII-CXI); “Estas som as horas que os frades confessos da ordem de cister deuem dizer” (f. CXI v.-CXIII); somando um total de 113 fólios, em reto e verso. Note-se, no entanto, que apesar de o registro da Biblioteca informar que os títulos estão em latim, dos quatro títulos que compõem o códice, apenas o Liber ad Usum Cisterciensium se encontra totalmente em latim, já que dois outros estão em português e o terceiro oscila entre o latim e o português. 

O texto apresenta em todos os fólios uma significativa presença  de trechos em latim que variam em extensão. Nos fólios 10v e 11r há uma tabela toda escrita com abreviaturas, em grande parte, latinas. Acerca das abreviaturas do documento, pode-se dizer que estas são bastante idiossincráticas, destoando do padrão comumente adotado na época, mesmo nos trechos em latim. O documento não contém iluminuras, isto é, ilustrações ou desenhos que geralmente ornamentavam os manuscritos medievais. No entanto, são fartos no manuscrito ornamentos zoomórficos e antropomórficos que parecem encerrar elementos próprios da sociedade em que estava inserido. Além dos desenhos, há também letrinas iniciais ornadas com filigranas e antenas. O cerne narrativo, como sugere o próprio título, são os ritos e hábitos dessa importante comunidade monástica, à guisa de uma prescrição do comportamento a ser adotado em diversas circunstâncias (nas festividades, missa, ritos fúnebres etc.). Esse conteúdo se apresenta dividido em 122 capítulos e organizado por  rubricas, regularmente grafadas em vermelho, nas quais o assunto é indicado. Vale registrar que o conhecimento dos dados guardados no Livro de Uso da Ordem de Cister é, pois, uma dessas tarefas que aclaram os feitos que enredam a história e contribuem para investigação da constituição histórica da língua portuguesa, pois figuram nessa obra os usos, ritos e costumes dos mais influentes cenobitas da Idade Média portuguesa.


Lisana Rodrigues Trindade Sampaio
Universidade Federal da Bahia - UFBA

Edições Modernas

ABBATIA Sancte Marie de Morimundo. “I codici miniati di Morimondo”. Quaderni dell’ Abazia. n. XV, pp. I-LXI, 2008.

MARTINS, Mário S. J. Da vida e da morte dos Monges de Alcobaça. Revista Brotéria. V. LI, n. 1., 1950.

PAIS, Carlos Castilho. Apuntes de Historia de La traducción portuguesa. Vertere. Monográficos de La Revista Hermeneus, n. 7, 2005.

https://repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/1254/1/Apuntes.pdf

PIMPÃO, Álvaro J. da Costa. Idade Média. 2 ed. Coimbra: Ed. Atlântida, 1959.

SAMPAIO, Lisana Rodrigues Trindade. Edições e estudo do Livro dos usos da Ordem de Cister, de 1415. 1. ed. São Paulo: NEHiLP/FFLCH/USP, 2014.


Trecho traduzido e modernizado

Transcrição do Fólio 4v

Começam-se os ofícios eclesiásticos I e do Advento primeiramente

Comece no primeiro domingo do advento ler o livro de Isaías as matinas e dali em diante todo seja lido pelo advento também na Igreja como no refeitório, segundo o cantor ordenar. E se, porventura, nestes dias do advento fizerem comemoração de algum Santo na véspera ou nas laudes, primeiramente, façam do advento e depois do santo, salvo se for festa de .xxii. lições. Quando a festa de santo André for no sábado, nas vésperas, sobre os salmos sejam ditas as antífonas da festa. *** e as outras. Mas o capítulo e toda as outras coisas que se seguem completamente serão ditas do advento. E, ditas as vésperas, seja feita comemoração da festa e deste modo será feito todas as vezes que festa d’algum santo for feita em algum sábado . {E quando ocorrer a vigília de Santo André no primeiro domingo do advento ambas as missas serão do advento. E a missa da vigília será rezada. E comemoração seja feita da vigília a missa da Prima.} Mais, se a festa de santo André for no domingo em outro dia seja feita, porque as vésperas primeiras serão do apóstolo e isto porque não pode haver as vésperas segundas porque o embarga Santo Eloy. E aos domingos farão comemoração. E de todo em todo assim seja feito quando festa d’algum apóstolo cair em segunda-feira. Da festa de Santo Eloy e de São Nicolau quando for em algum domingo do advento posto que se prolongue e se faça em outro dia só a festa de São Nicolau nas primeiras vésperas. E de São Thomé de todo seja feito assim como de Santo André quando em algum domingo ou segunda-feira for o .iiiª. dom desse advento, o jejum das .iiiª. têmporas que em cada ano deve-se fazer as homilias.


Autor do documento: Frei Estevão Anes

Nome do documento: Livro dos Usos da Ordem de Cister.

Data da composição: 1415.

Lugar de composição ou impressão: Alcobaça

Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal - Cota: ALC. 208