O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Libro del consejo e de los consejeros

MESTRE PEDRO (Pedro Gómez Barroso). Libro del consejo e de los consejeros. España: c.1306-c.1336.

Obra da literatura sapiencial castelhana de inícios do século XIV (c.1306-c.1336), o Libro del consejo e de los consejeros, de Maestre Pedro, é o primeiro tratado ibérico a se dedicar especificamente ao tema do conselho e dos conselheiros reais, objeto que recebeu crescente atenção nos séculos seguintes. No século XV, o tratado fez parte do acervo de Isabel, a Católica, o que indica a sua relevante inserção na corte castelhana.

Desde o século XIII, assiste-se no Ocidente medieval ao processo de institucionalização dos conselhos, movimento que se manifesta na formalização de regimentos para a instância, na especialização das funções e dos conselheiros, e na preocupação crescente com as qualidades dos membros do conselho¹. Ao passo que o conselho régio ampliava as suas funções, evidencia-se a multiplicação de discursos sobre o príncipe e o exercício da realeza, assumindo destaque especial o gênero dos specula principis, uma vasta literatura com raízes na Antiguidade Clássica, nos pais da Igreja e mesmo em tradições textuais do mundo muçulmano. Desse processo, acentua-se em finais do medievo um conjunto de obras sobre a responsabilidade do monarca no sentido de saber reconhecer e escolher bons conselheiros, textos que podem ser classificados como espelhos de conselheiros². São exemplos ibéricos: o Libro del Consejo e de los consejeros, de Maestre Pedro; o Leal Conselheiro (1438), de D. Duarte; o Consejo y Consejeros del Príncipe, de Fadrique Furió Ceriol (1559); e o Tractado del Consejo y de los Consejeros de los Príncipes, de Bartolomeu Filipe (1584).

                Conforme Rincón (2006), o Libro del Consejo e de los consejeros expressa o abandono quase completo da tradição oriental, com principal exemplo ibérico em Kalila e Dimna, em favor de autores gregos, romanos e cristãos. Como expressão da arte da compilação que caracteriza a literatura medieval, o Libro del Consejo e de los consejeros traz o levantamento e a ordenação de diferentes fontes sobre o aconselhamento, baseando-se, sobretudo, no Libro consolationis et consilii, de Albertano de Brescia, por meio de quem são citadas a maior parte das autoridades bíblicas, patrísticas e clássicas³. Outras referências presentes na obra de Maestre Pedro são: Alexandreis, de Gautier de Chântillon; Prisciano, por meio do Florilegium Gallicum; Communiloquium, do fransciscano Juan de Gales; Manipulus Florum, de Thomas Hibernicus; fontes castelhanas como Bocados de oro, Vida de Segundo, Flores de Filosofia e Castigos e documentos del rey D. Sancho IV.

A autoria da obra, apesar de imprecisa, sustenta-se na identificação “Yo Maestre Pedro”, presente no prólogo. Parte da historiografia, no entanto, considera Pero Gomez Barroso, membro do conselho de Afonso XI e bispo de Cartagena, como o autor do tratado. O leitor contemporâneo dispõe de duas edições do documento: a primeira, editada por Agapito Rey (1962); e outra, mais recente, publicada por Barry Taylor (2014). A principal diferença entre as edições encontra-se no estudo introdutório, mais aprofundado em Taylor, que discorre sobre diversos aspectos relacionados ao texto, em especial o contexto do manuscrito e sua recepção cortesã. Ambas as edições sustentam-se no Ms. E (Escorial, ms. Z-III-4), escrito em letra gótica, que pertenceu à rainha Isabel de Castela, do qual derivam os Ms. A (BNE, ms. 6559), o Ms. B (BNE, ms.6608) e o Ms. C (BNE, ms. 9216). Todos os documentos são datados do século XV e encontram-se incompletos. A existência dos manuscritos quatrocentistas e o fato de nos exemplares E e A o tratado de Maestre Pedro encontrar-se associado à obra Castigos e documentos del rey D. Sancho IV, indicam a importância e a circulação do tratado no século XV.

Maestre Pedro explicita no prólogo que o Libro irá tratar de três temas centrais: “que cosa es consejo”; “quales han a ser los consejeros”; e “quantas son las cosas que embargan a todo buen consejero”. A obra estrutura-se em torno da oposição entre o bom e o mau conselho/conselheiro, contraste que favorece a exemplaridade buscada pelo tratado. A preocupação com a moral reverbera ao longo do texto, com o autor enfatizando os vícios que são contrários a todos os bons conselheiros. Em síntese, os vícios são: a ira (cap. VII); a cobiça (cap. VIII); o arrebatamento do coração (cap. IX); a falta de temperança, tanto no modo de agir como de falar (cap. X); a torpeza e a loucura (cap. XI); o ser lisonjeador (cap. XII); as inimizades (cap. XIII); o amor oriundo do temor (cap. XIV); a embriaguez (cap. XV); as duas línguas, homens chamados “bislinguis”, que falam determinadas coisas boas na presença da pessoa, mas, quando ela se vai, maldizem-na (cap. XVI); a maldade (cap. XVII); a juventude (cap. XVIII).

Sendo o conselheiro uma figura relevante na governação e de crescente importância na Baixa Idade Média, a tradição especular passa a considerar com maior autonomia e detalhamento o que se espera do aconselhamento e daqueles que proferem conselhos, além de enfatizar o dever régio de escolher e honrar os seus privados. Inserindo-se nesse movimento, Maestre Pedro constrói um tratado didático que define as virtudes necessárias para o aconselhamento, prerrogativas que, se não observadas, podem levar o reino a consequências negativas, com os males que nascem de cada vício presente nos maus conselhos/conselheiros. Ao esquematizar como deve ser o aconselhamento, Maestre Pedro estabelece um ideal para o ato de aconselhar, para os conselheiros e para a instância do Conselho. Desse modo, ao passo que exorta os homens que procuram ocupar tal lugar de destaque ao lado dos monarcas, o tratado orienta o próprio rei no processo de escolha de seus conselheiros e de avaliação dos conselhos recebidos.


¹ MICHON, C. “Essai de synthèse. Conseils et conseillers en Europe occidentale (v. 1450-v.1550).” In: MICHON, C. (dir.). Conseils et Conseillers dans l’Europe de la Renaissance (v.1450-v.1550). Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2012.

² MUNIZ, Márcio Ricardo Coelho. “Espelho de conselheiros: um possível gênero da literatura política ibérica.” Floema, ano 1, n.2, p.101-134, dez. 2005.
³ TAYLOR, Barry. “La capitulacion del Libro del consejo e de los consejeros.” Incipit, Buenos Aires, v. 14, 1994, pp. 57-68.



Douglas Mota Xavier de Lima
Universidade Federal do Oeste do Pará

Edições Modernas

PEDRO, Maestre. Libro del consejo e de los consejeros. Edición de Agapito Rey. Zaragoza: Biblioteca del Hispanista, 1962.

_______. Libro del consejo e de los consejeros. Edición de Barry Taylor. San Millán de la Cogolla: Cilengua, 2014.


Referências Bibliográficas

LIMA, Douglas Mota Xavier de; RODRIGUES, Êmily Sthephane. “O perfil dos conselheiros na Baixa Idade Média Ibérica: o Libro del consejo e de los consejeros. Revista Eletrônica História em Reflexão, Dourados/MS, v.12, n.24, 2018, pp.235-253.

MICHON, C. “Essai de synthèse. Conseils et conseillers en Europe occidentale (v. 1450-v.1550).” In: MICHON, C. (dir.). Conseils et Conseillers dans l’Europe de la Renaissance (v.1450-v.1550). Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2012, pp.341-412.

MUNIZ, Márcio Ricardo Coelho. “Espelho de conselheiros: um possível gênero da literatura política ibérica.” Floema, ano 1, n.2, p.101-134, dez. 2005.

NOGALES RINCÓN, David. “Los espejos de príncipes en Castilla (siglos XIII-XV): un modelo literario de la realeza bajomedieval.” Medievalismo, n.16, 2006, pp.9-39.

TAYLOR, Barry. “La capitulacion del Libro del consejo e de los consejeros.” Incipit, Buenos Aires, v. 14, 1994, pp. 57-68.

Trecho traduzido e modernizado

Transcrição 

(Prólogo do documento): Segundo conta um sábio nomeado de Servio, quando alguma obra boa e proveitosa é lida e se demonstra algo de novo ante muitos homens, é costume que geralmente cada um deles tenha entendimentos específicos das coisas que ouvem; assim que alguns, não querendo dizer mal do bem, louvam muito aqueles que ouvem e se aprazem com isto; os outros, movidos por três coisas, uns por inveja, e por malquerença que sentem, por não terem em si o saber completo para fazer aquela obra adequadamente, como se deve fazer, denunciam e argumentam mal do que é bem dito e lamentam sobre isso. E segundo diz este sábio, não é maravilha, porque a natureza dos homens é assim empiorada e presta mais a fazer mal do que a perdoar e raciocinar o que é contrário e até julga as coisas duvidosas da pior maneira possível. Porque três coisas os impedem muito mal. E a primeira é o não saber. 


Autor do documento: Mestre Pedro (Pedro Gómez Barroso).

Nome do documento: Libro del consejo e de los consejeros

Data da composição: c.1306-c.1336

Imagem: Biblioteca Nacional de España: 

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