O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Flos Sanctorum

DESCONHECIDO. Flos Sanctorum. Portugal: Provavelmente anterior a 1385.

De autoria desconhecida, provavelmente anterior a 1385¹

O Flos Sanctorum é um manuscrito fragmentário, de caráter hagiográfico, escrito em pergaminho, paleográfica e linguisticamente datável da segunda metade do século XIV. Integra, hoje, o espólio documental medieval mais antigo existente no Brasil, cujo conjunto é conhecido por Manuscritos Serafim da Silva Neto, em homenagem a seu antigo possuidor, eminente filólogo e bibliófilo, encontrando-se, desde 1964, sob a guarda do Setor de Obras Raras da Biblioteca Central da Universidade de Brasília. 

Os documentos relativos a narrativas de vidas de santos remanescentes nas bibliotecas portuguesas não parecem associar-se à mesma tradição textual a que teria pertencido o Flos Sanctorum, podendo-se, no estágio atual do conhecimento do espólio documental em língua portuguesa, afirmar tratar-se esse manuscrito de um codex unicus

Não existe precisão sobre o local de produção desse importante documento, mas as pesquisas realizadas até o momento têm apontado para algum mosteiro do norte de Portugal, muito provavelmente.

O teor do Flos Sanctorum discorre sobre a vida, morte ou feitos de diferentes religiosos, ermitãos, anacoretas ou santos, da tradição cristã, a exemplo de San Panuço, Sancto Jsidro, San Serapion, Sancto Apollonio, San Dyoscoro, Sã Macario do Egipto, San Ffruytoso, Sancta Beenta, Sancta Paaya, São Symhon, San Donadeu, Sancto Nauto, Sam Masono, Santo Jnnocencio, São Paayo, Sã Johãne, Sancto Patriarcha, San Valerio, Sancto Emiliam ou Mihã, entre outros, intercalando o texto, para além de mandados da Igreja (crer em Deus, cultivar simplicidade, amar e dizer a verdade, guardar castidade, ser largo de coração, ter fé na verdade, temer Deus e obedecer seus mandados, ter continência ou moderação, não duvidar, afastar-se da má cobiça, cultivar a boa cobiça ou boa ambição, distanciar-se da tristeza, não temer o inimigo), o registro de diversos milagres e exemplos voltados à alegada edificação moral e religiosa.

                Das cento e quarenta e três narrativas identificadas, bastante variáveis na dimensão textual, nem todas exibem rubricas ou títulos e incluem, entretanto, outras histórias além das anunciadas. Dessas, algumas, conquanto não sejam da mesma tradição textual, como antes registrado, encontram-se patentes no Códice Alcobacense CCLXVI/ANTT 2274, do século XV, a exemplo da Vida de Santa Pelágia (Paaya), Vida de Tassis ou Tarsis e Vida de uma Monja, revelando-se ótimo material de pesquisa sobre dois momentos históricos da língua portuguesa, em razão de terem sido o Flos Sanctorum e o Códice Alcobacense antes referido produzidos em períodos diferentes da Idade Média portuguesa.

¹ As grafias apresentadas obedecem àquelas adotadas na edição interpretativa de Machado Filho, 2009.

Américo Venâncio Lopes Machado Filho
Universidade Federal da Bahia

Edições Modernas

CASTRO, Ivo (dir.). Vidas de Santos de um manuscrito alcobacense (Colecção mística de fr. Hilário da Lourinhã, Cód. Alc. CCLXVI / ANTT 2274). Separata de: Revista Lusitana. (Nova série), Lisboa, n. 4, 1985. 

MACHADO FILHO, Américo Venâncio Lopes. Um flos sanctorum trecentista em português. Brasília: Editora UnB, 2009.


Trecho traduzido e modernizado

Transcrição:

{F27vC1}¶ Aqui se começa o terceyro livro deste volume das Vidas dos Padres Sanctos que viverom em Merida, em aquela Provincia que dizem Lusitanea. E em este livro jaz aynda algumas vidas d’alguus padres sanctos que vio sam Jheronimo andando pelo ermo do Egipto.  ¶ E este livro terceyro foy todo trasladado de grego em ladinho, pelos muyto honrados clerigos da Eigreja de Roma, dom Paayo, clerigo d’avangelho da Eigreja de Roma, e per dom Johãne, clerigo d’epistola dessa meesma Eigreja. ¶ Aqui se começa a Vida dos Padres Sanctos que viverom na cidade de Merida e nas terras que darredor eram, que som na Provincia de Lusitanea.

Aqui começa o terceiro livro deste volume das Vidas dos Padres Santos que viveram em Mérida, e naquela província que chamam de Lusitânia. Neste livro encontram-se ainda os relatos das vidas de alguns padres santos que viram São Jerônimo andando pelo deserto do Egito. E este terceiro livro foi todo traduzido do grego para o latim, pelos muito honrados clérigos da Igreja de Roma, D. Paulo, clérigo de Evangelho da Igreja de Roma, e por D. João, clérigo de epístola dessa mesma Igreja. Aqui começa a vida dos Padres Santos que viveram na cidade de Mérida e nas terras ao redor, que estão na província da Lusitânia. 


Autor do documento:  Desconhecido.

Nome do documento: Flos Sanctorum.

Data da composição: Provavelmente anterior a 1385.

Lugar da composição ou impressão: Talvez de algum mosteiro do norte de Portugal.

Imagem: Fólio 27v