O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

ST2: Aconselhar em Terras Cristãs: períodos medieval e moderno, permanências e rupturas (XV-XVII)

Coordenadores: Franco A Biondi (UNICAMP), Lívia Torquetti (UNICAMP) e Andrezza Canova Pigaiani (UNICAMP)

Horário do Simpósio: 22/09 16:00

Na história do cristianismo, o ato de “aconselhar” assumiu diferentes manifestações que procuraram instruir sobre valores morais essenciais à fé cristã, tidos como hábitos distintivos de sua adequada compreensão e vivência. Durante a Idade Média e Moderna, termos como “aconselhar”, “recomendar”, “exortar”, “instruir”, “formar” e “edificar” eram recorrentes em seus discursos, e formavam o principal vocabulário empregado para induzir comportamentos e realizar sugestões, as quais versavam desde as melhores formas de se conduzir a vida individual à correta orientação dos assuntos de governo.
Por volta dos fins do século XI, a pauta da “reforma” da igreja, estendida a todos os membros do “corpo cristão”, instigava o ideal da pregação, principal ensejo para a formulação de novas ordens monásticas e movimentos leigos que traziam, em seu cerne, o compromisso público com a veiculação da palavra como meio de reconduzir a sociedade aos modelos do cristianismo primitivo, ou, ao menos, às necessidades percebidas por seus contemporâneos como respostas aos principais problemas vivenciados por seus contextos. A pregação, assim, se assumiu enquanto fator distintivo da “conversão”, palavra que antes do século XVI, significava, sobretudo, a adesão a uma vida de perfeição, propagada pelas exortações, compreendidas como forma de “aconselhar”, as quais, por sua vez, estão na base das transformações vislumbradas na passagem do mundo medieval para o moderno.
Intrinsecamente relacionada à pregação, tinha-se a veiculação do discurso escrito pelo gênero dos manuais e dos exemplos, orientados tanto para o encorajamento dos preceitos religiosos, associados de forma comum às expressões da religiosidade monástica e leiga, quanto para o fornecimento de conteúdo e materiais de apoio aos pregadores. Os primeiros, os “manuais”, podem ser entendidos como traduções dos libelli, “pequenos livros”, cuja característica física permitia que estivessem à mão, e servissem, de forma prática, como guias e meios de instrução aos seus leitores. Os segundos, gênero dos exemplos, procuravam prover aos pregadores repertórios de vida de santos e biografias de notável valor moral, com o intuito de serem empregados em seus discursos e ensinamentos, de modo a exortarem seus ouvintes a reproduzirem, dentro de interpretações específicas, os modelos apresentados por suas histórias. A sua relação pode ser bem entendida pelo emprego da citação de Cassiodoro, “propagar as palavras de Deus pelas mãos”, que permite entrever o fim último da formulação e cópia desses gêneros escritos.
Com o advento das reformas do século XVI, os discursos, tanto orais quanto escritos, assumiram o principal papel na disseminação da palavra de Deus e na reforma moral e dos costumes, refletindo o anseio de conduzir os fiéis em um caminho de conformidade com as prescrições das Escrituras. No âmbito católico, para além do âmbito coletivo, tem-se a intensificação das confissões individuais. Nas perspectivas então construídas, a análise e controle sobre a consciência e a conduta cristã procuraram instruir os pontos essenciais das diferentes ortodoxias.
Os desdobramentos oriundos dos anseios pela conversão a hábitos condizentes com uma vida autenticamente religiosa e, posteriormente ao século XVI, com os ideais expressos pelas distintas confessionalizações, engendram uma nova expressão das pregações: as atividades missionárias. Essas, ainda que se afastassem das preocupações com a conversão no seio da cristandade, compartilharam a mesma gênese nos conselhos, procurando instruir costumes e concepções a sociedades externas à Europa, e que se efetiva, sobretudo, pela correção coercitiva do que era entendido como “errôneo”, “bárbaro” e “inadequado”.
Não inteiramente distintos da pregação escrita e moral, há o surgimento do gênero dos Espelhos de Príncipes, cuja especificidade diz respeito à orientação aos soberanos e, de forma mais ampla, aos responsáveis pelo papel da condução dos assuntos públicos. Adotados, principalmente, pelos humanistas, esse gênero reflete a valorização do movimento pela erudição e pelo cultivo das virtudes, destinado, com especial ímpeto, àqueles tidos como expressões máximas do corpo social. Esses, tidos por sua posição de destaque como os mais capazes de fomentar ideais como justiça, harmonia e devoção, representarem o principal objetivo dos humanistas, os quais se atribuíram o papel de conselheiros, e procuraram a reforma de toda a comunidade cristã partindo de seus soberanos.
Em meio a essas mudanças perceptíveis no período, nota-se uma transformação no modo de ser dos homens, compelidos a novas regras de comportamento. Com isso, os conselhos também se direcionaram às formulações de comportamento que buscavam direcionar e padronizar o viver em sociedade, como as cortes e espaços públicos. O aconselhamento, portanto, ultrapassava o espaço do sagrado e também fazia parte de um processo de uniformizar o modo de se portar dentro da laicidade.
Assim, o objetivo desta proposta é permitir um espaço de discussão a respeito das diferentes manifestações do ato de “aconselhar” entre a passagem da Idade Média para a Moderna, contemplando as transformações e permanências evidenciadas entre os dois períodos. Como se nota, a ideia de reforma, pregação e conformidade de hábitos, entendidos aqui enquanto principais expressões da ideia de “conselho”, envolveram diferentes meios e formas, que permitem contemplar tanto os aspectos da produção oral e escrita, bem como as esferas distintivas, formuladas pelos períodos, entre “secular” e “religioso”; entre os diferentes “corpos” e espaços da sociedade cristã; entre as distinções percebidas, por diferentez matizes, entre o “errôneo” e “correto”; e, por fim, entre as diferentes intensidades possíveis ao ato de aconselhar, capaz de expressar tanto o reforço de convensões quanto choques violentos entre diferentes perspectivas.